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Sem Trump, Capitol Ministries vira o trunfo dos evangélicos conservadores dos EUA na América Latina

Entrevista com a professora doutora Magali Cunha, realizada por Mariama Correia, publicada em Agência Pública em 12 de novembro de 2020. Acesse o post original aqui.

“Enquanto uma vitória pode levar a uma descarga de adrenalina sem descanso, […] uma perda pode levar a meses, às vezes anos, de depressão debilitante”, escreveu o pastor Ralph Drollinger, fundador do Capitol Ministries (Ministério do Capitólio), no artigo “Mantendo a saúde e o bem-estar após as eleições”. O texto foi publicado esta semana, depois que Joe Biden já tinha sido anunciado como o próximo presidente dos Estados Unidos. O Capitol Ministries é um grupo cristão norte-americano criado para evangelizar lideranças políticas, que já possui braços na América Latina, incluindo o Brasil, como a Agência Pública mostrou nesta série de reportagens.

O texto pode ser interpretado como uma pista sutil do descontentamento de Drollinger com a derrota de Donald Trump. Afinal, foi o republicano que abriu as portas da Casa Branca para o Capitol Ministries, que tem uma visão alinhada à extrema direita anti-direitos das mulheres e dos LGBTI+, contra políticas de proteção aos imigrantes e negacionista de mudanças climáticas. Foi durante o período Trump que o Capitol Ministries começou a promover encontros semanais de estudos bíblicos para o alto escalão do governo dos Estados Unidos a fim de justificar, por meio da Bíblia, intenções do governo como construir o muro na fronteira com o México para evitar a entrada de imigrantes e refugiados.

“Compreende-se do Gênesis 11 que as nações, pelos desígnios de Deus, devem ter diferentes línguas, culturas, e fronteiras”, diria Drollinger. “As leis imigratórias de cada nação devem ser baseadas na Bíblia e estritamente aplicadas – com a absoluta confiança e a garantia de que Deus aprova tais ações.” O Capitol Ministries criou também capítulos em vários países da América Latina, coordenados pelo peruano Oscar Zamora, inclusive no Brasil.

Com Joe Biden na presidência e sem o amparo direto da Casa Branca para emplacar pautas anti-direitos, a direita cristã norte-americana deve adaptar estratégias para manter seu poder de influência na América Latina, e o Capitol Ministries será fundamental nessa missão, avalia a professora doutora Magali Cunha. Pesquisadora de religião e diretora do Coletivo Bereia, especializado em checagem de notícias religiosas, Magali acaba de lançar um livro chamado Fundamentalismos, crise da democracia e ameaças de direitos humanos na América do Sul: tendências e desafios para a ação, no qual reflete sobre os avanços do fundamentalismo como fenômeno religioso e político no continente. O e-book será lançado oficialmente nesta quinta-feira (12) nas redes sociais.

No livro, ela explica que o fundamentalismo cristão norte-americano se fortaleceu nos anos 1960, em oposição aos que lutavam pelos direitos civis e contra a Guerra do Vietnã. Na década seguinte, o movimento fundamentalista ganhou força com os televangelistas, pastores com vastos recursos financeiros e acesso a veículos de radiodifusão que queriam conquistar a “América para Jesus”. Ainda na década de 1970, quando o aborto foi legalizado nos EUA, surgiria uma nova direita cristã, chamada de “maioria moral”. Esse movimento conservador, associado ao Partido Republicano, era liderado pelo reverendo Jerry Falwell e se organizou para impulsionar apoio às pautas chamadas “pró-vida” e “pró-família”.

A “maioria moral” mobilizou votos de conservadores cristãos para as eleições presidenciais do republicano Ronald Reagan, que, já eleito, nomeou líderes fundamentalistas cristãos para cargos do governo. Essa aliança continuaria sendo reforçada durante outros governos republicanos, como nos anos Bush (pai e filho) e no governo de extrema direita de Donald Trump, que articulou o avanço fundamentalista cristão na América Latina, se tornando figura de referência para governos conservadores, como por exemplo o de Jair Bolsonaro (sem partido).

No livro, você cita o Capitol Ministries, que é um grupo criado nos Estados Unidos para evangelizar líderes políticos. Diz que Trump abriu as portas da Casa Branca para esse grupo evangélico conservador e que, com apoio do governo norte-americano, eles iniciaram um plano de internacionalização, estabelecendo escritórios em vários países. Pode falar um pouco sobre essa relação entre o governo Trump e a atuação do Capitol Ministries na América Latina? 

O Capitol Ministries não é um grupo novo. Ele foi fundado por Ralph Drollinger [ex-jogador de basquete e pastor] e se consolidou nos anos 2000, com foco nos estados norte-americanos e em seus parlamentares. Com apoio de Trump, o Capitol Ministries criou um discipulado de estudos bíblicos em encontros semanais na Casa Branca. Essa articulação com o Executivo se deu graças à intervenção de Mike Pence [vice-presidente dos EUA], de Mike Pompeo [secretário de Estado] e de ministros que já eram políticos patrocinadores do Capitol Ministries antes mesmo de assumirem ministérios.
Foi ancorado nesse apoio de Trump que o Capitol Ministries estendeu sua influência, atuando com um perfil político e ideológico também fora dos EUA. A partir de 2016, a organização passou a atuar em 24 países, inclusive no Brasil e em outras nações da América Latina.

A América Latina seria hoje um foco de atuação? 

Sim. Eles têm como meta criar, em longo prazo, ministérios em 200 países. E já têm capítulos em vários países, como Equador, Honduras, Panamá e no próprio Brasil. No site do Capitol Ministries, esse foco fica claro também na lista de programações de cursos com grande foco em lideranças da América Latina. Inclusive, alguns ministrados pelo próprio Ralph Drollinger. No Brasil as operações começaram ainda durante o governo Temer, como mostramos em uma reportagem.

Em 2018, Michele Bachmann, uma ex-deputada do Tea Party [uma ala radical do Partido Republicano] que está inserida na diretoria do Capitol Ministries, enviou vídeo para igrejas no Brasil pedindo que votassem em candidato que apoiasse a transferência da capital de Israel para Jerusalém. Ela não citou o nome de Bolsonaro, mas era uma referência à campanha dele.

No ano passado, com articulação da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, que é evangélica, e do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, católico conservador, o Capitol Ministries finalmente chegou ao Brasil. Araújo ajudou a fazer a “ponte” entre os estadunidenses e os brasileiros.

Além de Bolsonaro, a entrada do Capitol Ministries no Brasil também se deu por interferência das lideranças da bancada evangélica e da católica. Mas até agora a atuação está sendo muito discreta, em reuniões bíblicas e de oração no Congresso. A pandemia também acabou atrapalhando essas programações presenciais.

Essa atuação do Capitol Ministries pode-se intensificar agora ou deve perder força com a saída de Trump do governo?

Acredito que, com a saída de Trump, o Capitol Ministries deve parar de fazer estudos bíblicos semanais na Casa Branca, com participação de membros do governo. Joe Biden, o presidente eleito, não deve manter essas programações porque Ralph Drollinger tem posturas políticas mais radicais.

Mas o ministério já está articulado tanto nos EUA quanto em países da América Latina. As ramificações já criadas, como a brasileira, devem se manter. Embora o grupo possa perder a força da máquina do governo estadunidense na promoção de seus objetivos, a direita religiosa nos Estados Unidos é muito forte economicamente e deve se adaptar fazendo novas articulações, como já fez em derrotas eleitorais anteriores. É provável, inclusive, que o Capitol Ministries seja utilizado para manter a força conservadora da direita religiosa na América Latina e no Brasil.

De que modo o Capitol Ministries pode ser esse “braço forte” da direita cristã dos EUA na América Latina?

Influenciando de forma mais incisiva lideranças políticas com relação a pautas antidireitos e o fortalecimento de políticas neoliberais. No Brasil, a bancada evangélica no Congresso já é uma força suficiente para reverberar essas pautas conservadoras, que têm relação com o enfraquecimento de políticas de Estado, como o homeschooling [ensino em casa], por exemplo.

O movimento atual desses grupos cristãos conservadores nos Estados Unidos tem sido de incremento de uma articulação. É perceptível um movimento articulado internacionalm ente. No Brasil, esse movimento tem sido incrementado também com a bancada católica no Congresso, fortalecendo essa grande aliança cristã conservadora.

Era esperado que o apoio dos evangélicos brancos favorecesse Trump nas urnas porque esse eleitorado votou massivamente nele em 2016. Embora Trump ainda detenha o apoio desse público, de perfil mais conservador, Biden ascendeu conquistando os protestantes negros e católicos hispânicos, como mostrou uma pesquisa do Pew Research Center. Nesse ponto, a derrota de Trump pode ser interpretada também como uma perda de espaço para a direita cristã na política norte-americana?

Perder as eleições significa perder uma batalha, mas a direita religiosa é muito arraigada à política norte-americana e, independentemente do governo, tem mantido seu poder. A derrota eleitoral tem um significado importante para o momento que o mundo vive, mas esse grupo continua com uma base forte, que deve se mobilizar para as eleições no Congresso.

Por outro lado, a vitória de Biden deve ser interpretada como uma demonstração da força de articulação entre as comunidades negras, as igrejas negras e os católicos hispânicos nas eleições norte-americanas. Movimentos como o Black Lives Matter [Vidas Negras Importam] tiveram um papel importantíssimo na articulação entre essas comunidades, especialmente prejudicadas durante o governo Trump. São movimentos que dialogam com a herança de líderes religiosos negros, como Martin Luther King e outras lideranças negras do país.

Já Kamala Harris, vice de Biden, é batista, casada com um judeu, e vem de uma família com tradição hindu. Esse perfil religioso ajudou Biden a dialogar com evangélicos progressistas, com as igrejas negras e com outras religiões? Esse diálogo é algo que podemos esperar no governo dele?

O perfil religioso de Kamala Harris ajudou Biden a dialogar com os evangélicos progressistas. Há muitas críticas a ela como política membro do Partido Democrata, mas ela tem um histórico de ativismo pró-imigrantes, contra o racismo. Ela foi um ponto importante de diálogo com igrejas negras e deve continuar sendo forte nas articulações que alterem políticas de extrema direita que vieram com força no governo Trump.

Biden é o segundo presidente católico na história dos EUA depois de John F. Kennedy (1961-1963). Ele é católico praticante, já esteve com o papa Francisco – a quem Trump fazia oposição. Por outro lado, Biden já foi impedido de receber a comunhão por ser favorável ao aborto. Você acredita que a orientação religiosa do presidente eleito aproxima os EUA do Vaticano? 

O governo Trump fazia oposição ao papa Francisco e às políticas que o Vaticano tem assumido no seu pontificado, de caráter mais progressista. Sendo Biden uma liderança histórica do Partido Democrata que sempre deixou muito clara sua vinculação religiosa, sua eleição representa, sim, um alinhamento com a militância católica vinculada a uma teologia mais progressista, mais aberta, que se alinha bastante àquilo que tem sido pregado pelo pontificado de Francisco. Inclusive, o arcebispo de Washington, Wilton Gregory, nomeado cardeal recentemente – ele foi o primeiro arcebispo negro dos EUA a ser nomeado cardeal – também é alinhado com o papa.

O fato de Biden ter o apoio de religiosos com perfis mais progressistas pode ter impactos em política antidireitos? Bandeiras conservadoras como as anti-LGBTQ, contra migrantes e contra o aborto, que avançam nos Estados Unidos e na América Latina, muitas vezes com financiamento de grupos norte-americanos, devem retroceder?

Os Estados Unidos foram um articulador político dessas pautas nos últimos anos, com financiamento, presença na OEA [Organização dos Estados Americanos], presença na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, reforçando essas lideranças que emergiram conservadoras no continente. Considerando essa perspectiva, pautas anti-direitos tendem a perder força com a saída de Trump, uma vez que elas vinham recebendo apoio de dentro do próprio governo – na mesma linha do que acontece no Brasil, onde pautas anti-direitos ganharam respaldo no governo Bolsonaro, sendo potencializadas por ele.

Mas é importante lembrar que, apesar da eleição norte-americana, ainda temos muita força de grupos e governos conservadores na América Latina, como no Brasil, na Colômbia e no Peru. Grupos anti-direitos atuam na região via religião e via organizações laicizadas, porém articuladas com religiosos e que recebem financiamento deles. Precisaremos observar, em um segundo momento, como vai se dar a articulação política entre Estados Unidos e países da América Latina, sobretudo com os novos governos da Argentina, da Bolívia, os movimentos de renovação política no Chile. Também o Brasil, a partir da eleição de 2022.



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